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Contra a xenofobia e o racismo, um bolinho de fubá

  • Foto do escritor: Mariana Ribeiro
    Mariana Ribeiro
  • 30 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Como a interpretação de Ceumar valorizou a fala caipira em Bolinho de Fubá

Eram seis da tarde e eu ligava a TV depois de um dia na escola. Minha atenção logo se voltava para um sotaque que eu não costumava assistir por aquela tela. A euforia de ouvir o meu R não demorava a passar quando percebia o exagero dos atores fluminenses ou paulistanos ao tentarem representar seus personagens caipiras.


A mesa com um café quentinho e um bolinho de fubá era mais interessante. E foi essa sensação que Ceumar me provocou com a interpretação da canção Bolinho de Fubá. Escrita por Edvina de Andrade, a música ressalta carinhosamente o momento do café tão presente na cultura caipira.


Na voz da sul-mineira, a nossa maneira de falar brilhou mais. Ceumar fez questão de reforrrçar o R característico de quem mora em regiões como o Sul de Minas Gerais conforme o Atlas Linguístico da UFJF. Então, o bolinho fritinho na gorrrdura ficou ainda melhorrr.

Viola Perfumosa (Ceumar / Lui Coimbra / Paulo Freire) - Bolinho de Fubá (Edvina de Andrade) Ao Vivo

O que esse silêncio tem a dizer?

Formalmente chamado por R retroflexo, essa pronúncia mais fechada é alvo de muitos estigmas no Brasil. Os traços relacionados à cultura caipira costumam ser pejorativamente relacionados a estupidez, sujeira e atraso.


Não me esqueço de quando uma professora do curso de Jornalismo me disse que eu precisaria mudar o meu R se quisesse arranjar um emprego. E comprovei o preconceito quando a repórter de uma redação hegemônica no próprio Sul de Minas me contou ter recebido instruções de uma fonoaudióloga para reprimir seu sotaque.


Além da xenofobia, a aversão ao R retroflexo revela também um racismo. Ao ler a dissertação de mestrado da minha conterrânea Letícia Pinto, descobri o trabalho de Priscila Piscinato. Para ela, esse nosso R e o jeitin devagar e até cantado de falar - entre outros elementos - caracterizam comunidades que viveram mais distantes de portugueses e tiveram mais contato com povos indígenas.


Um canto de resistência

A única explicação para forçar caipiras a aprenderem um novo sotaque é a dominação. Até mesmo o argumento da fluidez do discurso cai por terra, quando pensamos que caipiras cortam o R no final de algumas palavras, como Ceumar canta em Bolinho de Fubá: cantá, desabrochá.


Ao valorizar a fala caipira originada pela indígena, Ceumar subverte a lógica hegemônica que tenta silenciar vozes interioranas. E se a cultura dominante insiste em nos impor um outro modo de falar, respondemos com um afetuoso bolinho de fubá servido com café quentinho e muito orrrrrrgulho.


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