Mantiqueira: um território cantado por Nádia Campos
- Mariana Ribeiro

- 11 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
No seu EP mais recente, Nádia Campos convida a percorrer a Serra da Mantiqueira como uma trilha: com pausa, atenção e respeito. Distribuído de forma independente pela Tratore, Mantiqueira (2025) é um trajeto poético pela “montanha que chora”, como a artista evoca ao resgatar a origem do nome em tupi.
Por meio dos sons da natureza, de chocalhos indígenas e da viola, o EP reconstrói o território da perspectiva de quem o reverencia. Há uma delicadeza sonora de quem percebe o ambiente ao entorno e se deixa afetar por ele.
Vozes da serra
Fica evidente o respeito da artista pelos povos originários daquela terra. Logo na primeira faixa, que leva o nome do EP, Nádia conta a lenda indígena que deixou a Mantiqueira conhecida por “serra que goteja”.
Além disso, em Origens, o uso de chocalhos remetem à presença indígena naquele local. Ao mesmo tempo, o uso da viola remete à cultura caipira presente na serra, que se estende pelos interiores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Reza a lenda caipira de que a vinda de um beija-flor prenuncia uma visita. Assim, se camponeses vivem frequentemente a solidão traduzida em Bacurau Traquina, podem encontrar a alegria em um simples colibri, como mostra a leve e solar Pequenos Voos.
Flores que não murcham, rios que continuam, caminhos que não terminam
O amor também é tema no novo EP de Nádia Campos. Na faixa Sempre Viva, o nome da planta que não murcha é relacionada ao desejo de permanecer ao lado de alguém por meio do verso “eu só quero é me ajuntar com você pra vida inteira”.
Uma das presenças que potencializam a qualidade do EP é a dos letristas Bené Fonteles e Dércio Marques, responsáveis pela faixa Por um Fio/ Alma de Rio. Entre os recursos presentes na letra, destaca-se as aliterações das consoantes “v” e “z”, que contribuem para a ideia de fluidez de um rio.
Fechando o álbum, Canção do Caminho é uma despedida que convida a continuar. O verso “Caminho, caminhar, horizonte” leva à compreensão de que a estrada continua para além da última faixa - basta ouvir a voz do coração.
Mantiqueira é um EP que demonstra a maturidade e a sensibilidade artísticas de Nádia Campos, abraçando as paisagens naturais e os povos que dão vida à serra. Um trabalho essencial para quem quer ouvir um Brasil que não precisa ser descoberto e, sim, contemplado.









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