Steve Cutts esfrega a podridão do mundo na nossa cara
- Samuel Elom
- 23 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 4 de jun. de 2025
Steve Cutts não quer que você se sinta confortável. Muito pelo contrário. Ilustrador e animador britânico, ele ficou conhecido por transformar a podridão da sociedade contemporânea em imagens incômodas, poderosas e inescapáveis.

A arte como denúncia: quem é Steve Cutts?
Com um traço que remete à estética dos cartoons dos anos 1930, Cutts cria universos perturbadores que denunciam de forma brutal o consumismo desenfreado, a alienação digital, a exploração do trabalho e a destruição ambiental.
Antes de se tornar um artista independente, Cutts trabalhou em agências de publicidade, experiência que, mais tarde, serviu como combustível para suas críticas. Em entrevistas, ele já afirmou:
“A ironia de trabalhar com publicidade é que, enquanto eu ajudava marcas a venderem mais, por dentro eu estava morrendo um pouco todo dia.”
Essa dualidade entre a sedução estética e o desconforto moral é o que torna sua obra tão marcante.
MAN: a humanidade como praga
Em 2012, Cutts lançou o curta “MAN”, que viralizou rapidamente. Em pouco mais de 4 minutos, o vídeo mostra um personagem: o ser humano, passando por todas as formas possíveis de exploração e destruição da natureza, até o colapso.
Um curta que dá soco no estômago
Sem uma única palavra, apenas com uma trilha sarcástica de fundo, ele faz uma denúncia clara: somos o maior parasita do planeta.
As imagens são simples, mas a mensagem é devastadora. Animais, florestas, oceanos, tudo é destruído para dar lugar ao lixo, ao lucro, à pressa. Ao final, a natureza se vinga, mas nem isso soa como redenção.
Alienação digital e a prisão invisível
Outro trabalho impactante é o clipe “Are You Lost in the World Like Me?”, feito em parceria com o músico Moby. A animação mostra pessoas totalmente absorvidas por seus celulares, ignorando agressões, fome, suicídios e violência à sua volta.
A estética em preto e branco, inspirada nos antigos desenhos da Max Fleischer, dá o tom melancólico perfeito para a crítica.
É um retrato fiel da era dos smartphones: pessoas viciadas em dopamina digital, incapazes de criar vínculos reais, enquanto o mundo desaba em volta.
A crítica ao capitalismo e à ilusão do progresso
Cutts bate forte no capitalismo. Sua arte desmonta o mito do “progresso” que esmaga a natureza e reduz os trabalhadores a engrenagens descartáveis. Em muitos de seus quadros, é comum ver figuras humanas enjauladas em escritórios cinzentos, robotizadas, morrendo lentamente dentro do sistema.
“A sociedade atual recompensa comportamentos destrutivos e ignora os impactos reais de nossas ações coletivas”, disse Cutts em uma entrevista.
E ele mostra isso sem dó. Fábricas que cospem produtos e corpos, homens com cabeça de porco representando empresários gananciosos, crianças sugadas por telas. Tudo isso se repete como símbolos de uma distopia real, em que estamos todos inseridos.
A estética do desconforto
Apesar da dureza das mensagens, a arte de Cutts não é feia. Pelo contrário, ela é belamente perturbadora. O traço vintage contrasta com o conteúdo mórbido, criando um efeito ainda mais inquietante. É como assistir a um episódio dos Looney Tunes escrito por George Orwell.
Esse contraste é proposital. Ao nos atrair com a estética nostálgica, ele nos prende e depois nos obriga a olhar para a sujeira que tentamos ignorar todos os dias.
Por que Cutts é essencial hoje?
Em tempos onde o algoritmo nos entrega conteúdos que massageiam o ego e escondem a realidade, Steve Cutts é o antídoto amargo, mas necessário. Sua arte nos lembra que estamos anestesiados, que vivemos numa grande farsa sustentada por propaganda, consumo e distração
Ele não quer curtidas. Ele quer causar crise existencial.
Num mundo onde influencers vendem apostas esportivas para jovens endividados e multinacionais pintam garrafas plásticas de verde para parecerem sustentáveis, Steve Cutts nos grita na cara: “Acorda, porra.”
Você pode acompanhar o trabalho de Steve Cutts pelo site oficial dele ou no Instagram @steve_cutts, onde ele compartilha novas animações e ilustrações.









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