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PRIMO - ‘Cidade na Mente’: conheça os traços que transformam a rua em arte

  • Foto do escritor: Giovanna Victoria
    Giovanna Victoria
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura
Primo fazendo grafite no festival Fala Quilombo em Itabira

Nos grafites de Primo, a cidade é atravessada por histórias.


Falar sobre o Primo é falar sobre uma presença que se expressa em silêncio. Ele mesmo costuma dizer que não é bom com as palavras, e talvez por isso tenha encontrado na arte visual a forma mais honesta de se fazer ouvir.


Siga o Primo no Instagram: https://www.instagram.com/77primo/


Escrever sobre o trabalho de um artista carrega uma responsabilidade enorme, talvez seja por isso que demorei algumas semanas para concluir este texto. Tentar colocar em palavras aquilo que outra pessoa já expressa visualmente é complexo.


Ao narrar as obras do Primo, sinto o desafio de respeitar essa intensidade e captar a profundidade do que ele cria e sua forma de se comunicar. Mas neste escrito também contém muito da minha forma de interpretar uma criação, que também pode ser mutável, ou de despertar no leitor a curiosidade para conhecer esse trabalho.




Qual o verbo do princípio?

Sirlan Monteiro, mais conhecido como Primo, cresceu em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Desde pequeno, o desenho fazia parte da sua vida, primeiro nos cadernos, entre personagens de animação, e depois nos muros da cidade Foi ali que o hip hop e a cultura urbana começaram a fazer parte da sua história.


Primo fazendo grafitando no festival Fala Quilombo


A pichação, o grafite, o encontro com a rua: tudo se tornou parte do seu jeito de pertencer e de se comunicar. “No meu bairro, havia essa cultura de escrita urbana, tanto de pichação quanto de grafite. Comecei a passar os meus desenhos para os muros com o intuito de ter relevância no grupo social em que eu participava”, conta Primo, mostrando como o grafite surgiu como forma de expressão e pertencimento desde o início.




Cidade na mente

O artista conta que “Cidade na Mente” nasceu desse desejo de pensar o espaço urbano como extensão da consciência.


Cidade na mente - Arte de Primo

“Comecei a criar esses personagens com prédios saindo da cabeça deles porque eu estava estudando o rosto humano e queria trazer algo que remetesse ao grafite também”.



O resultado são figuras que carregam o peso e a beleza da cidade sobre si, uma metáfora visual sobre o que significa existir em meio ao urbano, ser parte dele e, ao mesmo tempo, resistir a ele.


Com o tempo, o grafite que antes era uma intervenção no espaço urbano se tornou uma linguagem de construção poética. “Cidade na Mente”, hoje uma marca simbólica e quase que registrada do seu trabalho, traduz essa fusão entre o indivíduo e o ambiente. Os personagens criados por Primo carregam prédios na cabeça, como se o pensamento urbano fosse parte da anatomia humana.


Grafite de Primo em BH

Manifestação da ancestralidade

Nos tempos atuais, muito se fala sobre ancestralidade, algo que sempre se fez presente em nosso modo de viver. Esses rostos retratados pelo artista, quase sempre negros, emergem de suas obras com uma presença que parece respirar fora das telas.


Se observar com sensibilidade, há algo neles que te olha de volta. Primo desenha essa herança como uma força viva, expressando a cidade atravessada pela negritude, pela história e pelos afetos de quem nela habita.


O urbano como matéria viva

Existe uma poesia densa no modo como ele representa essa fusão: o urbano não é uma essência oculta, é simplesmente matéria viva. Ao incorporar fragmentos da cidade, como as grades, texturas e construções, Primo faz um gesto que é, ao mesmo tempo, estético e de conexão.


Há algo nesse movimento que dialoga com o espírito das obras de Jean-Michel Basquiat, a mesma urgência em transformar a cidade em linguagem, em traduzir o caos e a beleza do cotidiano em traço e cor. Parte do trabalho do artista é retratar aquilo que ele vê. Assim como Basquiat, podemos perceber em sua arte que o urbano não se observa de fora: ele se vive.



Fora dos muros

Primo também é arte-educador, e é nesse papel que ele revela outra camada do seu processo criativo. A educação surge como continuidade do mesmo gesto que o move nas ruas: o desejo de partilhar, de fazer com que outros encontrem a própria forma de expressão.


“Trabalhar com crianças e ver como elas se desenvolvem através da arte é muito satisfatório”

Há nessa ideia algo semelhante ao que o rapper e também grafiteiro paulista, Rodrigo Ogi, faz em músicas como “Redenção” (do EP Pé no Chão, 2017), onde Ogi fala de usar a arte como forma de reconstruir o muro que separa e de se erguer em meio à sociedade que oprime:


“Eu uso a arte para o muro quebrar e com isso não me deixo no apuro ficar.”

Esse processo artístico também movimenta quem se vê transformado no contato com o processo de criação.


As molduras implícitas no Graffiti

Com o reconhecimento, seu trabalho começou a atravessar os limites da Região Metropolitana de Belo Horizonte.


Ele participou de projetos e editais importantes, como o Muraliza e o Telas Urbanas, expôs em Belo Horizonte, Contagem e no Rio de Janeiro, trabalhou com projetos comerciais e festivais em Itabira e segue espalhando seus traços por diferentes lugares. Mas o essencial permanece: a coerência entre o que ele cria e o que ele é.


Observar sua obra também é, de certo modo, olhar para o espelho da cidade, um espelho que devolve tanto o tangível quanto o invisível. Seu grafite expõe, sobretudo, identidade e pertencimento.


Da rua ao imaginário

No início, isso tudo era uma forma de existir, de ser visto. Com o tempo, porém, esse impulso ganhou outra camada: o desejo de compreender a cidade e transformá-la em narrativa. Foi assim que suas obras começaram a sintetizar uma inquietação, que provavelmente não é uma experiência individual: a relação entre o ser e o espaço urbano.


Nos muros, rostos humanos se fundem a prédios, como se o pensamento fosse feito de concreto e como se o urbano habitasse a mente.


O poder transformador da arte

O contato com a arte tem o poder de deslocar, abrir caminhos e provocar pensamento. Seja em muros, folhas ou telas, esses espaços se tornam, todos, ferramentas para que o criador manifeste sua criação.


O mesmo artista que pinta de forma espontânea nas ruas é aquele que estuda, reflete e se reinventa. Sua arte se mantém íntegra porque nasce de um lugar verdadeiro: o desejo de se comunicar, mesmo quando as palavras faltam.


Sua forma de traduzir o mundo em camadas, e que ouso classificar como visível e abstrato, talvez seja o que torna seu trabalho singular: o fato de que, em cada parede, muro ou tela que ele pinta, seus personagens tentam respirar em meio à selva de pedra.






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